A pré-candidatura do Senador Wilder Morais (PL) ao governo de Goiás ganha relevância no cenário
eleitoral de 2026 por várias e diferentes razões e, hoje, cada vez mais, analistas e políticos se
perguntam qual são as efetivas possibilidades deste nome desequilibrar a polarização entre forças
tradicionais em disputa pelo cargo majoritário estadual. As possíveis respostas a perguntas como
estas não são assim tão simples.
Análises de conjuntura política são, como devem ser, complexas e multifacetadas, especialmente
porque costumam visar a realização de previsões. Entretanto, sabe-se nas ciências humanas e sociais
que os eventos históricos jamais se repetem, nem mesmo aqueles que aparentam se repetir, como
eleições. O uso de fatos do passado é, sempre, muito pouco confiável para conceber o futuro.
Neste artigo, procuramos, então, simplificar essa complexidade, em benefício da clareza, e, também,
evitar previsões, de modo a respeitar os limites desse tipo de investigação. Afinal, mesmo que não
saibamos o que de fato acontecerá, trabalhar com informação é melhor do que com ignorância.
Tomamos aqui também o cuidado de não fazer “revelações” de dados oriundos de pesquisas
qualitativas, trabalho ao qual este articulista se especializou nas últimas três décadas, em razão dos
resultados obtidos estarem sob cláusulas contratuais de sigilo profissional. Esta análise, portanto,
decorre da nossa experiência de pesquisador. São informações que, se não bastam para compor as
cuidadosas estratégias de campanha, viabilizam pelo menos para um debate informado – o que,
nestes tempos de fake news e desinformação, já é um ganho relevante.
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A análise da candidatura do Senador Wilder Morais (PL) ao governo de Goiás em 2026 envolve uma
série de fatores estratégicos, considerando o cenário político atual e as movimentações recentes no
estado.
Um dos elementos que têm sido considerados positivos é o alinhamento ideológico e o apoio do expresidente Jair Bolsonaro. Wilder é, hoje, sem dúvida, o principal representante do "bolsonarismo" em Goiás e isso tem sido apontado como um ativo valioso, por ser Goiás um estado com perfil
conservador e onde o ex-presidente mantém supostamente uma base de eleitores fiel.
Temos, contudo, razões para acreditar que não se deve confiar tanto assim nesse fator. O marketing
político profissional sabe, desde que foi inventado, que o voto do brasileiro não se transfere entre os
diferentes patamares da República. O eleitor médio não alinha seus votos a presidente, governador e
prefeito. Coisas como alinhamento ideológico e transmissão de influência ocorrem sob circunstâncias
muito específicas e somente em alguns setores minoritários do eleitorado. O que prevalece, na
maioria dos casos, são aspectos específicos da conjuntura local e do perfil das candidaturas.
Uma recente notícia nesse sentido, em relação ao Senador Wilder Morais, foi a oficialização de Ana
Paula Rezende, filha de Iris Rezende Machado, como pré-candidata a vice-governadora. A
expectativa neste caso é trazer um peso histórico e emocional significativo para a candidatura de
Wilder, pela possibilidade de atração do "Irismo".
Essa possibilidade é também limitada ao fato de que a filha e eventual herdeira política do falecido
líder político desfruta de algum desconhecimento pela população do Estado. Não se deve ignorar
também que a trajetória do próprio Íris foi acidentada, tendo seu percurso estadual interrompido
pela sequência de sucessos eleitorais de Marconi Perillo, que percorreram todo o início do século
XXI. A contribuição de Ana Paula, portanto, embora significativa, como conquista da candidatura
Wilder, tem lugar, tempo e dimensão.
A isso se soma a configuração partidária. O MDB de Íris está nas mãos do vice-governador e também
candidato, Daniel Vilela, que tem o apoio explícito de Ronaldo Caiado, cuja aprovação pelo eleitorado
confere ao filho de Maguito a condição de favorito na corrida eleitoral deste ano. Wilder, portanto,
mesmo que acompanhado de Ana Paula, ao se posicionar na disputa, enfrentará a força política do
governador e da estrutura do governo estadual, que já alinhou em torno de si a maioria dos prefeitos
goianos. Superar um candidato que representa a "continuidade" de um governo bem avaliado é um
dos maiores desafios de marketing da campanha de Wilder. Haja pesquisa quali para encontrar
saídas capazes de virar esse voto...
O que o senador tem, para isso? Como presidente estadual do PL, Wilder tem controle sobre o maior
partido do Brasil em termos de fundo partidário e tempo de TV. A legenda possui uma estrutura
robusta no interior do estado, o que é fundamental para a capilaridade de uma campanha ao
governo. Wilder é também detentor de uma trajetória bem-sucedida no setor privado e, como
senador, detém capital político e financeiro para sustentar uma campanha de alto custo, sem
depender exclusivamente de repasses externos.
Algo que exige solução imediata é o fato de que o PL tem vivido episódios de tensão interna e com
partidos aliados que se alimentam de receios razoáveis sobre a viabilidade de uma candidatura
própria. Há quem tema que o isolamento político da base governista possa dificultar a vitória,
preferindo uma composição que garantisse a sobrevivência política do grupo a longo prazo.
De todo modo, a viabilidade de Wilder está fortemente atrelada à temperatura política nacional, o
que, neste caso, talvez represente mais uma fragilidade do que uma força. Se o capital político de
Bolsonaro sofrer desgastes, já que o presidente se encontra condenado e cumprindo pena, ou se a
polarização nacional arrefecer, ou se, o que é provável, os eleitores se recusarem a alinhar seus votos
dos planos nacional e estadual, então Wilder pode perder o seu principal diferencial competitivo em
relação aos nomes mais "regionalizados" como Daniel Vilela ou Marconi Perillo.
Uma coisa parece certa, contudo: caso se candidate, Wilder Morais disputará votos no quintal
eleitoral de Daniel Vilela e Ronaldo Caiado. Ao se ligar a Ana Paula, o senador se apresenta
diretamente aos eleitores do MDB de Vilela e, também, àqueles que prestigiaram Íris Rezende na
capital, e, ao representar o bolsonarismo, tende a arrancar votos da base caiadista, que é onde se
encontra o conservadorismo eleitoral goiano. Trata-se, pois, de um cenário que, em princípio,
beneficia Marconi Perillo.
Mas, a inserção do ex-governador nesta análise é tema para outro artigo...





